Alişar Höyük — uma torta em camadas com milhares de anos no coração da Anatólia
Alişar Höyük (em turco: Alişar Höyük) — um dos sítios arqueológicos mais impressionantes da Anatólia Central e um verdadeiro arquivo da história da humanidade, condensado numa colina de trinta metros. Aqui, a 45 quilómetros a sudeste da cidade de Yozgat, a norte da aldeia moderna de Alişar, no distrito de Sorgun, camada sobre camada, encontram-se vestígios do Neolítico, do Calcolítico, da Idade do Bronze Antiga, dos mercadores assírios, do Império Hittita, dos frígios e dos bizantinos tardios. Para os arqueólogos, Alishar-Huyuk é um ponto de referência fundamental para a cronologia de toda a Anatólia; para o viajante, é o local onde, literalmente, repousam sob os pés oito milénios de vida ininterrupta.
História e origem de Alishar-Huyuk
Os primeiros povos estabeleceram-se aqui ainda no Neolítico, e as condições eram, para dizer o mínimo, invulgares: o povoado situava-se no meio de um lago, e a própria colina era a única terra firme habitável. Os arqueólogos encontraram vestígios desta camada mais antiga a 26 metros abaixo da superfície atual da colina e a cerca de 11 metros acima do solo «virgem» do continente. Com o início do Calcolítico, a água começou a recuar, as terras circundantes secaram e as pessoas desceram gradualmente da colina, mas não se esqueceram da segurança — começaram a erguer as primeiras fortificações exteriores em torno do povoado.
No início da Idade do Bronze (aproximadamente 3200–2600 a.C.), Alishar já se assemelhava a uma verdadeira cidade: casas retangulares com paredes de adobe e telhados planos, uma maciça muralha defensiva com portões e um traçado urbanístico bem definido. Mais tarde, as muralhas internas e externas foram reforçadas, e a própria colina transformou-se na «capital» da região. Foi precisamente na Idade do Bronze Média, no segundo milénio a.C., que Alishar-Huyuk entrou na história da grande política: tornou-se um entreposto comercial na rede mercantil assíria, que se estendia entre a cidade hitita de Hattusa e a cidade da Capadócia de Kanesh (Kültepe).
Isto é atestado pelas 53 tabuinhas cuneiformes aqui encontradas (contando com as cópias), escritas na língua assíria antiga do chamado «tipo da Capadócia». Trata-se de um arquivo típico de um entreposto comercial assírio: contratos, recibos, menções a viagens. Em algumas tabuinhas, os mercadores relatam como regressaram de Zalpuva (Zalpa); noutras, aparecem Kanesh e Hattusa; e noutras ainda, o comerciante Amur-Assur, conhecido pelos documentos do karum de Kültepe. Uma tabuinha ostenta o epónimo Adad-bani, referente aos últimos anos do reinado de Shamshi-Adad I da Assíria (1808–1775 a.C.). Mais duas tabuinhas estão seladas com o selo do «príncipe Anitta», o que deu origem a uma hipótese tentadora: o próprio Anitta, rei de Kushshar do final do século XVIII a.C., que, segundo o seu próprio texto jactatório, incendiou a cidade de «Kushshar», — poderia muito bem ter destruído também Alishar.
Após a conquista hitita, a cidade entrou na órbita do império com centro em Hattusa. De 1400 a 1200 a.C. Alishar provavelmente levava o nome de Ankua — é precisamente esta cidade que é frequentemente mencionada nos textos hititas, e a menção do topónimo Amkua nas tabuinhas locais torna a identificação quase inevitável. O fim chegou por volta de 1200 a.C., quando, juntamente com o colapso do reino hitita, o Estrato IV foi consumido pelas chamas; durante longos séculos, a colina permaneceu quase deserta. Os frígios chegaram aqui mais tarde e deixaram a sua camada cultural; e depois — os medos, os persas, os governantes helenísticos, os romanos e, finalmente, os bizantinos, dos quais restam no topo da colina as ruínas de uma igreja tardia.
Arquitetura e o que ver
Alishar-Huyuk não é uma colunata de um templo antigo nem um percurso turístico pronto a seguir com sinalização. É uma colina, e é aí que reside a sua principal beleza: diante de si encontra-se um livro geológico completo da civilização humana, e é preciso saber lê-lo. O tamanho do tell é impressionante por si só: 520 por 350 metros de base e 30 metros de altura, o que o torna uma das maiores colinas da Anatólia.
A cidadela e as três «alas»
No topo, a colina é coroada por um cone truncado — os arqueólogos designam-no pela letra A; trata-se da antiga cidadela. Dela, como se fossem pétalas, partem as três «alas» inferiores — B, C e D. A leste e a sul, a cidade baixa estende-se junto à colina principal. Ao longo das diferentes épocas, as fortificações foram sendo reconstruídas: a fortaleza interior foi ampliada, a muralha exterior recebeu novas fortificações, e na época hitita surgiram portões maciços com passagens subterrâneas e torres ao longo do perímetro. Os vestígios destas linhas de defesa são ainda hoje bem visíveis no relevo.
O mais antigo povoado da Idade do Bronze Inicial
As camadas mais antigas revelam uma arquitetura surpreendentemente sóbria, quase ascética: casas retangulares de tijolo cru sobre bases de pedra, telhados planos e pisos de barro compactado. As habitações estavam muito próximas umas das outras, formando o que os arqueólogos chamam de traçado rural «aglutinante». Mais tarde, as casas tornaram-se maiores e as paredes, tanto no interior como no exterior, foram rebocadas — um sinal de crescente prosperidade. Foi nessa altura que começou também o intercâmbio cultural com a Mesopotâmia.
Posto comercial assírio e cidade hitita
Foi precisamente na camada da Idade do Bronze Média, na mesma época do comércio de caravanas, que foram encontrados arquivos em escrita cuneiforme, cerâmica do tipo da Capadócia e vasos ritões zoomórficos — jarros elegantes em forma de cabeças de animais, datados de 1700–1500 a.C. Na época hitita, aparentemente correspondente à fase de Ankuwa, a cidade foi cercada por uma nova muralha e surgiram edifícios públicos na cidadela. Todos os achados mais valiosos — tabuinhas, selos, ritões, cerâmica — estão guardados no Museu das Civilizações da Anatólia, em Ancara, e, na verdade, qualquer visita séria a Alishar-Huyuk deve começar precisamente por lá.
A camada frígia e a igreja bizantina
Após a catástrofe de 1200 a.C., a colina foi gradualmente colonizada pelos frígios. Nesta camada, é visível a mistura das tradições hititas com a nova cultura; a cidadela anteriormente destruída é reconstruída sobre as antigas fundações. A algumas dezenas de quilómetros a sul fica Kerkene — uma enorme cidade frígia da Idade do Ferro — e, juntamente com Alishar, forma todo um «núcleo frígio» da Anatólia Central. No topo da colina, os arqueólogos escavaram as ruínas de uma pequena igreja da época tardorromana ou bizantina — um epílogo tranquilo de uma história de oito mil anos.
Çadır Höyük nas proximidades
A 12 quilómetros a noroeste de Alishar encontra-se o seu vizinho mais importante — Çadır Höyük (Çadır Höyük), que os arqueólogos modernos identificam cautelosamente com a cidade hitita de Zipparanda. O percurso «Alişar + Çadır» é clássico para quem deseja compreender a paisagem da província hitita. As escavações em Çadır decorrem de forma mais intensa: enquanto em Alishar, desde 1992, o trabalho se centrou principalmente na topografia e na fotografia aérea com balões, em Çadır Höyük, Ronald Gorny lançou uma temporada arqueológica completa. Este contraste é útil: Chadyr mostra como é um sítio «vivo» com escavações em curso, enquanto Alishar se assemelha a um arquivo adormecido sob a relva, que ainda aguarda os seus investigadores.
Metodologia de escavação e dimensão dos trabalhos
A expedição da Universidade de Chicago aplicou aqui uma das metodologias mais avançadas da época: toda a área da colina foi dividida em quadrados de dez por dez metros, rigorosamente orientados de acordo com os pontos cardeais. Cada quadrado foi escavado por camadas, com um registo minucioso dos achados e da estratigrafia. Foi precisamente graças a essa disciplina que os arqueólogos conseguiram associar tipos cerâmicos, selos e horizontes arquitetónicos a datas absolutas. Na verdade, os resultados das campanhas de 1927–1932 estabeleceram, durante longas décadas, o padrão de referência para a cronologia da Anatólia Central: quando em Hattusa, Kanish-Kültepe ou Beysultana se encontravam camadas semelhantes, estas eram comparadas precisamente com a escala de Alishar.
Factos interessantes e lendas
- No Neolítico, Alishar-Huyuk ficava literalmente numa ilha: o povoado estava rodeado por um lago, e só com o assecamento da região no Calcolítico é que as pessoas começaram a habitar as margens adjacentes.
- Numa das tabuinhas é mencionado o comerciante Amur-Assur — o mesmo nome surge no arquivo do karum em Kültepe; talvez se trate da mesma pessoa, cuja rede comercial abrangia a Anatólia, de Kanish a Hattusa.
- O selo do «Príncipe Anitta» em duas tabuinhas deu origem à hipótese de que o semilegendário rei hitita Anitta foi quem incendiou Alishar: nos seus próprios textos, ele gabava-se de ter tomado a cidade de Kushshar e, «semeando ervas daninhas no seu lugar», amaldiçoou-a para sempre.
- Todo o conjunto de achados únicos — cerâmica, um ritão em forma de cabeça de animal, estatuetas de barro cozido — está hoje exposto no Museu das Civilizações da Anatólia, em Ancara, e é considerado uma das melhores coleções da Idade do Bronze na Turquia.
- As escavações de 1927–1932, sob a direção de Hans Henning von der Osten e do seu adjunto Erich Schmidt, constituíram uma das primeiras expedições arqueológicas de grande escala da Universidade de Chicago no Médio Oriente e estabeleceram o padrão de estratigrafia para toda a Anatólia.
Como chegar
Alishar-Huyuk situa-se numa zona rural remota do distrito de Yozgat, sendo mais conveniente chegar até lá de carro. Os aeroportos de grande dimensão mais próximos são o de Ancara Esenboğa (ESB), a cerca de 220 quilómetros a oeste, e o de Kayseri (ASR), a cerca de 150 quilómetros a sudeste. Para os turistas de língua russa, é normalmente mais fácil voar via Istambul, com uma escala para um voo interno.
A rota clássica consiste em alugar um carro no aeroporto e seguir pela autoestrada D200 (Ancara — Yozgat — Sivas). A partir de Yozgat, deve seguir-se para sudeste em direção à cidade de Sorgun e, em seguida, virar para a aldeia de Alishar; a colina propriamente dita situa-se a norte da aldeia. A partir de Ancara, a viagem demora cerca de 3,5 a 4 horas só de ida. Sem carro, é possível chegar de autocarro a Sorgun a partir da estação rodoviária de Ancara (AŞTİ) e, a partir daí, de táxi ou boleia, percorrer cerca de 25 quilómetros até à aldeia. Existem poucas indicações para o tel, por isso é conveniente guardar antecipadamente a coordenada GPS (39,606° N, 35,261° E) num navegador offline.
Dicas para o viajante
A melhor época para a viagem é a primavera (abril–maio) e o início do outono (setembro–outubro). No verão, o planalto fica escaldante, praticamente não há sombra na colina, e no inverno a estrada da estepe pode ser difícil de percorrer devido à neve e à lama. Reserve cerca de 90 minutos para visitar o tello: é preciso subir sem pressa pela encosta, visitar a cidadela principal, contornar as «alas» e descer pelo lado da cidade baixa.
Não se esqueça de levar água, um chapéu, protetor solar e calçado confortável com sola resistente — a superfície da colina é irregular e, em alguns pontos, escorregadia após a chuva. Não há onde comer no local, por isso é aconselhável abastecer-se de comida e de uma garrafa térmica em Yozgat ou Sorgun. Aqui não existe qualquer infraestrutura para visitantes no sentido habitual: nem bilheteira, nem café, nem lojas de souvenirs — e também nisso reside o encanto especial do local, que lembra aos viajantes russos os túmulos «selvagens» das estepes do Baixo Mar Negro.
Para que a viagem valha a pena em termos de tempo, vale a pena combiná-la com outros locais da região. Num único dia, é possível visitar Alishar-Huyuk, o tel vizinho de Çadyr-Huyuk e a cidade frígia de Kerkene — resultando num itinerário intenso «nas pegadas dos hititas e dos frígios». Em dois dias, pode-se acrescentar Bogazkale-Hattusa, a antiga capital do reino hitita, e Yazılıkaya, o seu famoso santuário rupestre. E reserve obrigatoriamente meio dia para o Museu das Civilizações da Anatólia, em Ancara: é precisamente lá que estão expostas as mesmas tabuinhas, ritões e selos de Alishar-Hüyük, e sem eles a visita ao monte fica, em grande parte, «muda». Alishar-Huyuk não é um local para quem procura ruínas fotogénicas, mas sim para viajantes dispostos a ouvir o sussurro das camadas da terra: é aí que reside o seu principal valor.